Santa Bárbara, Iansã, a mulher de Xangô

Rosilda Cruz 30/11/2010 Comentários

Reconhecida oficialmente em dezembro de 2008, através de decreto publicado no Diário Oficial do Estado e assinado pelo governador Jaques Wagner, como patrimônio imaterial da Bahia, a Festa de Santa Bárbara é uma manifestação religiosa existente em Salvador há mais de 300 anos, ao longo dos quais se manteve viva e dinâmica. Hoje, a festa já está oficializada como bem cultural intangível e inserida no “Livro de Registros Especiais de Eventos e Celebrações” do Estado da Bahia. A homenagem à santa acontece no Centro Histórico de Salvador (CHS), no dia 4 de dezembro, iniciando o ciclo de manifestações populares da temporada de verão na capital baiana.

Contam os católicos que Santa Bárbara era natural da Ásia Menor e filha de um senhor muito rico que, em função da sua extraordinária beleza, a isolou do resto do mundo em uma alta torre com apenas duas janelas. Segundo a liturgia, durante uma viagem do pai, a jovem decidiu ser batizada cristã e pediu que abrissem mais uma janela na torre, a fim de homenagear a Santíssima Trindade.

Este feito provocou a ira de seu pai ao retornar da viagem. Apesar de ela ter conseguido fugir, foi denunciada, condenada e, depois, executada por seu próprio pai, que lhe cortou a cabeça com uma espada, no dia 4 de dezembro. Após a execução, o pai teria sido atingido por um raio e Santa Bárbara se tornado um mártir católico. Já no sincretismo com o candomblé, Santa Bárbara é Iansã, a divindade dos ventos, tempestades e raios. A imagem de Santa Bárbara foi trazida ao Brasil pelos portugueses ainda no período colonial e passou a ser cultuada no século XVII, quando o casal Francisco do Lago e Andressa de Araújo instituiu o Morgado de Santa Bárbara, em 1641, em homenagem à filha Francisca.

Este Morgado era composto por prédios e capela dedicada à santa e localizava-se ao pé da Ladeira da Montanha, transformado-se, com o tempo, em mercado. Devido a um incêndio no Morgado, em 1898, do qual restaram apenas ruínas e a imagem de Santa Bárbara, ela foi transferida, em 1938, para a Igreja do Corpo Santo. A imagem esteve, ainda, na Igreja do Paço, Igreja da Saúde, no Mercado de Santa Bárbara e, atualmente, encontra-se na Igreja do Rosário dos Pretos. Durante todo este período e ainda hoje a santa é invocada em momentos iminentes contra a morte trágica, trovões, armas de fogo, raios, explosões e temporais, como padroeira dos artilheiros, mineiros que lidam com explosões e bombeiros que lidam com o fogo.

A Festa de Santa Bárbara, que é patrimônio imaterial,  abre o ciclo de manifestações populares da temporada de verão em Salvador. A programação começa às 5 horas, do dia 4, com a queima de fogos de artifício na alvorada, às portas da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Largo do Pelourinho. Depois, às 7 horas, orações, e às 10 horas missa campal no largo. Após as bênçãos, o cortejo prossegue pela Rua Alfredo de Britto, Terreiro de Jesus, passando em frente à Catedral Basílica, seguindo pela Praça da Sé, Rua da Misericórdia, Ladeira da Praça, até chegar ao Corpo de Bombeiros, na Praça dos Veteranos.

Na sede dos bombeiros, a santa entra na edificação até à capela interna dedicada a ela, onde é saudada com jatos dágua e toques de sirene. A próxima parada é no Mercado de Santa Bárbara, lugar onde é servido o tradicional Caruru de Santa Bárbara e onde a santa permanece, retornando, depois, para a Igreja N.S. do Rosário dos Pretos, quando católicos e adeptos do candomblé voltam ao Pelourinho para continuidade dos festejos.
Com o passar dos anos a imagem esteve, ainda, nas igrejas do Paço, da Saúde, no Mercado de Santa Bárbara e, atualmente, encontra-se na Igreja do Rosário dos Pretos. Para Mateus Torres, Gerente de Pesquisa, Legislação Patrimonial e Patrimônio Intangível do IPAC, as festividades à santa revelam valores, elementos simbólicos e tradicionais. “A estética da festa é dinâmica e existe um ritual onde elementos católicos comungam com elementos de matriz africana”, revela. O modo de vestir, rezar, cantar, saudar, com sagrado e profano se confundindo, são elementos evidenciados na pesquisa do IPAC. “O profano e o sagrado relacionam-se dinamicamente com valores dotados pela comparação, contraste e contradição”, relata Torres. Segundo o IPAC, o cortejo de Santa Bárbara é o festejo popular que mais tem crescido em número de adeptos, apreciadores e turistas na Bahia.
“É um evento tradicional e as tradições têm que ser preservadas, é a nossa memória e história”, comenta Torres. A devoção à santa foi trazida pelos portugueses no período colonial. Ela era invocada em momentos iminentes contra a morte trágica, trovões, armas de fogo, raios, explosões e temporais, como padroeira dos artilheiros, mineiros que lidam com explosões e bombeiros que lidam com o fogo. A festa será inserida no “Livro de Registros Especiais de Eventos e Celebrações” do Estado. A cada cinco anos o IPAC realizará revisão da manifestação cultural já que seu dossiê tem que ser sempre atualizado e acrescido de informações.
A liturgia católica conta que Santa Bárbara era muito bela e que seu pai, com muito ciúme, a trancou numa torre para não arranjar pretendentes. Durante viagem do pai, ela decidiu ser batizada cristã, pedindo para abrir mais uma janela na torre, como homenagem a Santíssima Trindade. Quando seu pai voltou, ficou furioso, provocando a fuga da filha. Porém, ela foi denunciada, condenada e, depois, executada por seu pai, que lhe cortou a cabeça. Após a execução o pai teria sido atingido por um raio.
Já no sincretismo com o candomblé, a santa se assemelharia a Iansã, divindade dos ventos, tempestades e raios. Nas lendas yorubanas, Iansã foi a primeira mulher de Xangô, do qual ela roubou o segredo cuspir fogo e chamas pelo nariz e pela boca. Antes de ser mulher de Xangô, Iansã viveu com Ogum, de quem fugiu para viver com a divindade dos trovões e da justiça. Isso despertou a revolta de Ogum, que decidiu perseguir os dois. Numa luta com Iansã e seu rival Xangô, Ogum a dividiu em 9 partes, e esse número está na origem do seu nome, Iansã.
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