“O tempo eterno torna-se terno, ou melhor, terreno. Da terra, medido, contado e pesado. Seria esta a razão da afinação temperada? A idéia entra pela cabeça e sai pela boca… temperada, transformada. E depois das mãos para ficar visível na obra. Arte e artesanato.”
Anton Walter Smetak
Esta página ou secção não cita nenhuma fonte ou referência (desde junho de 2010).Por favor, melhore este artigo providenciando fontes fiáveis e independentes, inserindo-as no corpo do texto por meio de notas de rodapé. Encontre fontes: Google — notícias, livros, acadêmico — Scirus A Wikipédia possui oPortal da Música EruditaAnton Walter Smetak (Zurique, 12 de fevereiro de 1913 – Salvador, Bahia, 30 de maio de 1984) foi um músico suíço que viveu no Brasil a partir de 1937. violoncelista, compositor, escritor, escultor e construtor de instrumentos musicais, Smetak lecionou na Escola de Música da Universidade Federal da Bahia e influenciou toda uma geração de músicos brasileiros, entre os quais Tom Zé, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Marco Antônio Guimarães.[editar]Biografia
Filho de um casal checo que habitava a cidade de Zurique, Smetak desde cedo teve contato com a música. Seu pai, exímio tocador de cítara, foi seu primeiro professor. Embora desejasse tocar piano, um acidente que tirou a coordenação de sua mão direita fez com que estudasse violoncelo. Formou-se no Mozarteum de Salzburgo e tornou-se concertista em 1934 no Conservatório de Viena, junto a Pablo Casals.Em 1937 ele é forçado a mudar-se para o Brasil, contratado por uma Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Descobriu apenas após sua chegada que a orquestra já não existia mais. Passa a viver em São Paulo e Rio de Janeiro, tocando em festas, cassinos, orquestras de rádio. Acompanha cantores em gravações e chega a tocar com Carmem Miranda.Em 1957 muda-se para Salvador, na Bahia, chamado por Hans Joachim Koellreuter, onde passa a ser pesquisador e professor na Universidade Federal da Bahia. Lá conhece a teosofia e passa a realizar pesquisas sonoras. Constrói uma oficina onde cria instrumentos musicais com tubos de PVC, cabaças, isopor e outros materiais pouco usuais. Alguns dos instrumentos não têm utilidade puramente musical. São esculturas influenciadas por sua forma mística de encarar a música e as formas. Ao longo de sua permanência na UFBa, o músico construiu cerca de 150 destes instrumentos, os quais chamou de “plásticas sonoras”. Além disso atuou como violoncelista na Orquestra Sinfônica da Universidade Federal da Bahia e lecionava som e acústica.Também foi escultor e escritor. Participou em 1967 da I Bienal de Artes Plásticas de Salvador. Escreveu mais de 30 livros, três peças teatraisA partir de 1969, sua oficina passou a ser freqüentada por Gilberto Gil, Rogério Duarte e Tuzé de Abreu. Além deles, também foram seus alunos Tom Zé, Gereba, Djalma Correia e Marco Antônio Guimarães. Para executar seus instrumentos, criou, com os alunos da Universidade o “Grupo de Mendigos” que realizou apresentações na Bahia e em São Paulo.Em 1972, Caetano Veloso citou Smetak na canção “Épico”: “Smetak, Smetak & Musak & Smetak & Musak & Smetak & Musak & Razão”.Faleceu no dia 30 de maio de 1984 em Salvador. Suas “plásticas sonoras” encontram-se em exposição na Biblioteca Reitor Macedo Costa, no Campus de Ondina, Salvador.[editar]Música
Smetak foi muito influenciado pela mística esotérica. Acreditava que a música microtonal era superior à tonal e construiu ou adaptou muitos instrumentos para a execução desse tipo de música. Em sua oficina, tocava com seus alunos suas próprias composições e fazia improvisações microtonais. Seus alunos o chamavam carinhosamente de “Tak Tak” em referência à sua musicalidade.Com sua excentricidade musical, angariou admiradores entre os músicos eruditos e populares. Os artistas do Tropicalismo sempre o consideraram uma de suas mais fortes influências. Marco Antônio Guimarães, um de seus alunos, também violoncelista, foi um de seus seguidores mais fiéis. Em Belo Horizonte criou uma oficina instrumental nos moldes da de Smetak e fundou o grupo Uakti.Nos últimos dez anos de sua vida deixou de escrever partituras de suas composições, preferindo a improvisação em grupo com seus instrumentos. Deixou uma série de gravações dessas seções de improviso.Gravou dois LPs: “Smetak (1975), com produção de Caetano Veloso e Roberto Santana e “Interregno” (1980), com o conjunto Microtons.[editar]Ligações externas
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Informações e textos sobre Walter Smetak no site de Gilberto GilDicionário Cravo Albin da MPB – Verbete sobre Walter Smetak.
Em potencial, sem realidade porém…Walter Smetak
No primeiro período do trabalho, desconhecia o contexto de uma pesquisa exata, pois o intuito era mais de colaborar com a música contemporânea. Julguei, no meu modo de ver, primeiro que a música contemporânea devia ser feita com instrumentos não tradicionais, como composição à parte da música geralmente pretendida.
Foram construídas algumas dezenas de instrumentos, que podem ser considerados antecessores primitivos do que foram catalogados mais tarde como instrumentos tradicionais no Ocidente.
Ciente, pois, no decorrer do trabalho, de que o meu conhecimento histórico em matéria de instrumentos, era insuficiente, devido aos séculos decorridos desde a.C., percebi que a tal “pesquisa” se iniciava, já que era justamente pretensão nossa entrar na época contemporânea sem conhecer realmente o “início” das coisas no mundo dos planos vibratórios, extensivos à todos os ramos das artes. Confundia primitivismo com contemporaneidade, enganando muita gente e a mim mesmo, conseguindo pelo menos, ao destruir velhos conceitos,tornar-me amorfo.
Vale salientar que a pesquisa aqui iniciada teve por único incentivo, a iniciativa própria, sem nenhum recurso de CNPQ ou outro órgão oficial. Entendi que tinha entrado na dura fase de “recuperação do passado desconhecido” a fim de poder enfrentar a contemporaneidade, que por sua vez nada tinha a ver com o futuro. O pensamento do futuro, socialmente falando, afastou-se. A minha presença no presente era a única forma de me achar na existência. Fiquei assim sem tempo determinado, dedicando-me, de várias maneiras, às artes, seja como músico, artesão ou literato, tentando fixar o momento da minha eternidade.
Surgiram instrumentos cinéticos, instrumentos coletivos, e sobretudo um acontecimento deslumbrante: um professor ou mestre vindo de um remoto passado, e que era a Harpa Eólica. Daí por diante, ela me serviu de guia. Começou assim o processo de dissolução nos sistemas dos microvalores, conhecidos na música como microtons. Surgiu a pergunta: como resolver esses problemas, seja electronicamente, seja naturalmente. Faltavam recursos materiais como intelectuais, e não havia ninguém para se consultar. Faltava também estabilidade e salas adequadas para o bom procedimento do trabalho, sofrendo-se várias mudanças, quebras pelo transporte, roubo de peças e até inundações por esgotos quebrados. Ficou intacta apenas a oficina, a mesma tornando-se refúgio para os instrumentos quebrados. A pesquisa tornou-se uma reforma.
Aprendi que espaço significa forma, e tempo: mente sempre variável. Em paralelo a isso, o espaço contém uma energia atômica, podia ser o electron, circundada pela mente instável. Nas composições harmoniosas, NÃO ACONTECE NADA, apenas modulações harmoniosas, descrevendo uma natureza equilibrada. Nas composições dissonantes porém, chocantes, onde as dissonâncias abrem o caminho para acontecimentos sonoros, acontecem pequenas explosões no cérebro, veículo da mente humana. Pode tanto amansar como excitar. Os acontecimentos exteriores não devem influenciar, neste caso a composição tornar-se-ía um noticiário. Esse processo deve ser levado ao interior do ser humano, a fim de neutralizar os choques. Daí pode surgir uma compaixão interior.
A dualidade (divisão do + e – ) é confundida com o dualismo (discussão entre + e – ). Na dualidade existe homogenidade. A contemporaneidade parece ser um fenômeno do dualismo.
Resumindo: no homem existe uma mulher, e na mulher existe um homem. Tão separados apenas pelo sexo. O homem se exterioriza e a mulher se interioriza. Mas na verdade as duas unidades são a dualidade unificada. Esta concepção nos afastou dos acontecimentos, visando mais o pós-imediato do que o imediato. Aí entramos no próximo segundo (do futuro digamos), que se torna presente.
Houve uma conclusão muito significativa ao considerarmos a “Ronda”, onde descobrimos que ritmo, melodia e harmonia dependem da velocidadedo giro, isto é: velocidade máxima produz harmonias, carrossel celeste; velocidade média: melodias ou sons lineares, e finalmente ritmos: velocidade mínima. Estas velocidades podem ser usadas alternativamente (nativamente=nascer), porque em matéria de composição ou improvisação, não há regras fixas e sim justificativas, dependendo do caso.
Chegamos a outra consideração: podiam essas pretensões alterar os sistemas sonoros e musicais? Porque constatamos que o instrumento adequado produz um certo tipo de som ou música, mas a música é feita conforme o padrão inerente ao homem. O homem sempre reproduziu o clima do sistema geográfico ambiente. Existem casos de poliglotas universais, tal como Stravinski, que pode ser acusado de ter uma consciência universal, pois vive todos os mundos. Ele é tão litúrgico como dançante. Ele é ao mesmo tempo super-antigo e super-moderno, e tem essa faculdade de reunir o passado e o futuro no eterno presente. As estações fundidas numa só estação. Satélites girando ao redor do centro universal.
A tese, ou hipótese de criar novos instrumentos, cai quase por terra: surgiu o problema da timbragem. A electrônica, com seus sons artificiais (gerados no vacuum ou além das estrelas) é uma porta. Existe porém o perigo da dualidade cair no dualismo. Temos que estar alertos para superar o automatismo da nossa proclamação do “do-ré-mi-fa-sol-la-sismo”. Na antiguidade existia um poderoso significativo esotérico, que paulatinamente formou as escalas. Eram os sete planetas, dotados de suas vibrações específicas, tomando parte dos calendários Maya e egípcio.
Segue o esquema: MA = dó (marte); SO=ré (sol); ME=mi (mercúrio); SA=fa (saturno); JUI=sol (júpiter); VE=la (vênus); LU=si (lua). Ou seja: a primeira sílaba dos planetas marte, sol, mercúrio, saturno, júpiter, vênus e lua.
Esses planetas eram divididos em neutros, benéficos e maléficos, conforme a ciência da astrologia, caindo mais tarde na astronomia. Este mistério é reproduzido no dodecafonismo, ou seja, na extensão de 7 para 12 tons, que é o “do-ré-mi-fa-sol-la-sismo”. Ao reconscientizar o sistema antigo, pode acontecer que o chumbo se transforme novamente em ouro filosofal.
Existe uma grande falha na língua portuguesa ao denominar os dias da semana por “feiras”, com excessão de sábado e domingo pois em todas outras línguas latinas existe a relação planeta-dia. Talvez seja devido as feiras montadas nos diversos pontos da cidade, denotando assim o espírito mercantil português.
Essa época dos microtons representou a mais rica fase da pesquisa, culminando em Berlim 1982 na construção de sete monocórdios e uma oitava de microtons (49 por oitava).
Paralelamente tivemos um profundo olhar na mais moderna e atual eletrônica e ficamos com grandes dúvidas quanto à continuação do trabalho.
Sofremos três greves, várias mudanças do material, e finalmente, obtemos um acampamento para os instrumentos, na menor sala possível, a pesquisa exterior transferiu-se para o interior, passando da materialização do som para a música, palavra, plástica, o verbo, e finalmente o silêncio, fonte de toda manifestação universal.
Seguiram alguns trabalhos escritos, plásticas de barro, solidão e recolhimento.
Em soma, recomendamos este tipo de pesquisa autodidata “in loco” àqueles tateando num trabalho não subvencionado, orientados por um sentimento de aprofundamento no conhecimento, podendo assim terem um vislumbre da Sabedoria e do Amor existindo na Eternidade da Existência dos universos, cujo retrato são os instrumentos, num mundo de miniaturas das nossas artes humanizadas. MICROCOSMO. Conhecer esse único instrumento que é o HOMEM. Conscientizar a palavra música no seu sentido inverso: Ak-Is-Um, ou seja: Akasha (éter sonoro e luz), Isis = a bela luz, Um: a Unidade que abrange os três em Um. É necessário voltar do concretismo para o abstraismo do amorfo, para o caos homogêneo e indiferenciado, e de lá buscar o ainda não existente materialmente, e ter a capacidade de dissolver as descobertas imediatamente, porque atrás ainda vem muita gente. Raças nascidas do lixo atômico.
Vale notar o exemplo do genial artista Mário Cravo, no monumento (momento da consciência), onde ultrapassa o sentido de homenagem política, na quadratura do círculo erguida em 1982 na Avenida Garibaldi. Um instrumento de cimento armado contendo uma silenciosa e poderosa palavra aclamando os céus.
Após 15 anos de labor, conseguimos uma quantidade razoável de timbres novos, houve um relaxamento de maneira tão inesperada que esta experiência total dos instrumentos voltou-se para o violoncelo, quando um dia, numa improvisação, uma síntese de todas as experiências adquiridas no trabalho anterior, nasceram duas peças denominadas “Facho de Luz”. Era o final do disco “Interregno” que por um descuido, não foi incluido naquele disco, ficando assim anônimo para o público.
Daí adiante, as forças criativas cessaram, surgindo apenas mais um novo problema: será que tocar significa viver com intensidade artísticamente, ou é uma falsa projeção entre o não ser das artes e a vida? Esta pergunta não me foi respondida até hoje. Senti uma força desconhecida chegar com tanta veemência, não era eu, virei público ouvindo alguém. A música era um ser bem superior a mim, entretanto tomou conta de mim integralmente, como se fosse eu mesmo. Mas ao terminar, voltei a ser um homem comum como qualquer outro, sem poder me manter neste alto nível anterior. Tive a nítida noção de que era necessário fazer aquilo, pouco importando quem servia de instrumento. Viví daí adiante como espectado, observando as emoções, vibrando as vezes, ouvindo música como se fosse minha. Soube finalmente apreciar tudo que era nobre e raro, e senti de fato um gênio dirigindo as coisas belas que acontecem no palco da vida. Embora me sentindo um miserável mortal, senti a celebração da imortalidade.
Fechei o expediente, não há mais ninguém com quem me comunicar, e por força maior, dei por terminada a pesquisa, embora houvesse ainda necessidade de certa codificação. Ví com toda clareza que nada de novo tinha sido criado, apenas redescoberto por iniciativa própria, com a única pretensão de conquistar e descobrir sozinho os novos continentes, tateando do conhecido para o desconhecido. Este caminho traz muitas felicidades, muitas angústias também, porque, como foi dito anteriormente, a realidade não corresponde ao potencial, mas o Som, também invertido em Luz, pode levar o homem a ter um vislumbre da Existência.
Recomendamos esse tipo de trabalho, incluido num currículum universitário, para ser prosseguido por outra pessoa corajosa, disposta a um supremo sacrifício.
Possívelmente a pesquisa pode encontrar-se, em pouco tempo, contemplando o “NADA”. Isto é: ficar sem tempo, sem espaço e sem condições e quando soar esta hora, virá a crise total, de dentro para fora, encontrando esta vastidão de camadas culturais que o homem adquiriu durante séculos e séculos, e ele terá de se confrontar com o NADA, inerente ao TODO. Forçosamente o homem terá que voltar ao interior, e lá permanecer, lá onde reside o Nada, aquele Nada porém, que nunca nasceu e daí não pode morrer. Só assim o trabalho poderá recomeçar, destruindo as citadas camadas culturais, apodrecidas e gastas. Eis a diferença entre o criado e o Criador.
Uma crise desta envoltura, com certeza se empenhará em trazer um outro estado de consciência, um novo tipo humano, uma palavra nova e um SOM diferente. Creio que, deste momento em diante, a Pesquisa pode começar, uma vez cortados os laços com a velha cultura em estado delirante.
Salvador, 27 de julho de 1983




